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Posts com tag “Estética

Introdução à Poesia Oral

Contra a unidade de sentido clássica, ligada a certa etnocentrismo evolutivo, Paul Zumthor esgrime com as formas de conhecimento, ou ciência, da voz: “Trata-se de afastar um falso universalismo que é fechado – de renunciar (é questão de poesia) ao privilégio da escrita”.

Introdução à Poesia Oral, interroga portanto uma outra lógica, sempre mais ou menos recalcada na história, que se funda no dinamismo concreto da voz (relação entre voz, corpo e dança; entre voz, gesto e poesia, por exemplo): “Um dos sintomas do mal, foi sem dúvida,  desde a origem, o que nós chamamos literatura: e a literatura adquiriu consistência, prosperou, tornou-se o que é – uma das mais vastas dimensões do homem – recusando a voz”.

Pelo menos, dois elementos produtivos dessa lógica podem ser ressaltados: um deles é esse pendor migratório dos textos oralizantes, uma espécie de mobilidade sintática intercultural, fazendo com que as formas sufocadas reapareçam, a partir de novos mosaicos, que remetem o escrito ao falado, o arcaico ao contemporâneo. Outro elemento é a proximidade de signo entre palavra e corpo, muito mais palpável nas culturas de maior espetacularidade erótico-gestual, como aquelas do tambor ou bongô afro-mourisco-americano.

O que se coloca também, nos bastidores desse minucioso percurso dos modos perceptivos da poesia oral, é uma outra direção do pensamento para avaliar o processo das civilizações: ao invés da acumulação e concentração abstratas, derivadas dos sistemas digitais discretos, o estudo das relações e transformações rítmicas entre  o homem, seu corpo e a cultura.

Amálio Pinheiro

Autor: Paul Zumthor

Publicação original: 1983

Editora: HUCITEC

Idioma: Português

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http://www.4shared.com/document/MSmRVQML/Paul_Zumthor_-_Introduao__Poes.html

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Obras Escolhidas Volume I: Magia e técnica, Arte e Política.

“A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”

Com efeito, quando o advento da primeira técnica de reprodução verdadeiramente revolucionária – a fotografia, contemporânea do início do socialismo – levou a arte a pressentir a proximidade de uma crise, que só fez aprofundar-se nos próximos cem anos seguintes, ela reagiu ao perigo iminente com a doutrina da arte pela arte, que é no fundo a teologia da arte. Dela resultou uma teologia negativa da arte, sob a forma de uma arte pura, que não rejeita apenas toda a função social, mas também qualquer determinação objetiva. ( Na literatura, foi Mallarmé o primeiro a alcançar esse estágio). É indispensável levar em conta essas primeiras relações em um estudo que se propõe aestudar a arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porque elas preparam o caminho para a descoberta decisiva:  com a reprodutibilidade técnica, a obra de arte se emancipa, pela primeira vez na história, de sua existência parasitária, destacando-se do ritual.

No momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outras práxis: a política.

A arte registrava certas imagens, a serviço da magia, com funções práticas: seja como execução de atividades mágicas, seja como objeto de contemplação, à qual se atribuíamefeitos mágicos. Os temas dessa arte eram o homem e seu meio, copiados segundo exigências de uma sociedade cuja técnica se fundia inteiramente com ritual. Essa sociedadeé exatamente a antítese da nossa, cuja técnica é a mais antecipada que já existiu. Mas essa técnica emancipada se confronta com a sociedade moderna sob a forma de uma segunda natureza, não menos elementar que a sociedade primitiva, como provam as guerras e as crises econômicas.

O rádio e cinema não modificam apenas a função do intérprete profissional, mas também a função de quem se representa a si mesmo diante desses dois veículos decomunicação, como é o caso do político. O sentido dessa transformação é o mesmo no ator de cinema e no político, qualquer que seja a diferença entre as suas tarefasespecializadas. Seu objetivo é tornar “mostráveis”, sob certas condições sociais, determinadas ações de modo que todos possam controlá-las e compreendê-las, da mesma forma como o esporte fizera antes, sob certas condições naturais.

A diferença essencial entre autor e leitor está prestes a desaparecer. Ela se transforma em uma diferença funcional e contingente. A cada instante o leitor está pronto para a converter-se em um escritor.

A reprodutibilidade técnica da arte modifica a relação da massa com a arte. Retrógrada diante de Picasso, ela se torna progressista diante de Chaplin. O comportamento progressista secaracteriza pela relação direta e interna entre o prazer de ver e sentir, por um lado, e a atitude do especialista, por outro. Este vínculo constitui um valioso indício social. Quanto mais se reduz a significação social de uma arte, maior fica a distância, no público, entre a atitude de fruição e a atitude crítica, como se evidencia com o exemplo da pintura.

Do mesmo modo, um público que tem uma reação progressista diante de um filme burlesco,tem uma reação retrógrada diante de um filme surrealista.

A enorme quantidade de episódios grotescos atualmente consumidos no cinema constituem um índice impressionante dos perigos que ameaçam a humanidade, resultantes das repressões que a civilização traz consigo.

O cinema é a forma de arte correspondente aos perigos existenciais mais intensos com os quais se confronta o homem contemporâneo. Ele corresponde a metamorfoses profundas do aparelho perceptivo, como as que experimenta o passante, numa escala individual, quando enfrenta o tráfico, e como as experimenta, numa escala histórica, todo aquele que combate a ordem social vigente.

Autor: Walter Benjamin

Publicação original:1985

Editora: Brasiliense

Idioma: Português

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Walter Benjamin – Magia e Técnica, arte e política (Obras Escolhidas Vol. I)


Platão e o Simulacro

Paul Klee, Highway and Byways c.1929

Quando Deleuze escrevera Platão e o Simulacro, publicado originalmente no ano de 1967 e, depois, em 1969 como apêndice a Lógica do Sentido intitulado “Os simulacros e a filosofia antiga”, buscava reconstituir o projeto nietzscheano de provocar a “reversão do platonismo”. Não por acaso, 1968 foi o ano em que Deleuze publicara um trabalho que marcou, segundo ele, o momento em que deixou de fazer história da filosofia e passou a fazer, propriamente, filosofia: Diferença e Repetição, em que o filósofo também toca o projeto nietzscheano – aliás, o livro todo é atravessado por ele, bem como por uma forte influência de Henri Bergson.
Naquele texto sobre Platão, Deleuze pergunta-se o que significaria “reverter o platonismo”. A dialética platônica não é marcada pela contradição, mas pela rivalidade (amphisbetesis), e se vai operá-la a fim de, por intermédio de uma série “fundamento, objeto da pretensão e pretendente”, separar muito bem essências e aparências, o inteligível e o sensível, a Idéia e a imagem, o original e a cópia, o modelo e o simulacro.  É aí que Platão dividiria em dois o domínio das imagens-ídolos: de um lado, selecionando-as como bons pretendentes, pois revestidos de semelhança, bem fundamentadas, as cópias-ícones; de outro lado, signos de objetos mergulhados em dessemelhança, os simulacros-fantasmas, maus pretendentes.
A semelhança, porém, como Deleuze adverte, não constitui uma relação exterior; pelo contrário, o pretendente conforma-se ao objeto pretendido na medida em que se modela sobre a Idéia. A cópia, pois, será a fiel reprodução da Idéia sobre a qual se sustenta. Já o simulacro não passa pela Idéia, mas pretende o que quer que seja graças a uma pretensão não fundada, a recobrir uma dessemelhança e um desequilíbrio interno. Pois bem. Cópia e simulacro, definitivamente, são imagens. A diferença é que a cópia constitui uma imagem dotada de semelhança, enquanto o simulacro, uma imagem ausente de semelhança. Deleuze, por isso, observa que “O simulacro é construído sobre uma disparidade, sobre uma diferença, sobre uma dissimilitude”.  Essa é a razão pela qual não se pode definir o simulacro referenciado-o pelo modelo, pois ele não o pretende; pelo contrário, destoando infinitamente, o simulacro não deriva do modelo do mesmo, mas de um modelo do outro; sua dessemelhança interiorizada constitui um modelo outro, incluindo, mesmo, o ângulo do observador, integrando-o ao próprio simulacro.
É negativizando o simulacro como a cópia improdutiva, inservível, que o platonismo, segundo Deleuze, instaura, finalmente, o domínio que a filosofia, a partir de então, reconhecerá como seu: “o domínio da representação preenchido pelas cópias-ícones e definida não em relação extrínseca a um objeto, mas numa relação intrínseca ao modelo ou fundamento”.  O platonismo, em Deleuze, como em Nietzsche, significará fazer da filosofia um território do mesmo ou do semelhante, buscando limitar, tanto quanto viável, os devires do simulacro e, “para essa parte que permanece rebelde, recalcá-la o mais profundo possível, encerrá-la numa caverna no fundo do Oceano (…)”.
Apenas com o Cristianismo é que haverá um deslocamento muito sensível: não se tratará mais de fundar a representação, com limites, finita; muito mais, o problema estará em fazê-la valer também para o ilimitado, estará em torná-la ao mesmo tempo infinita e infinitesimal, “abrindo-se sobre o Ser além dos gêneros maiores e sobre o singular aquém das menores espécies”.  Esse é o mundo das representações, aquele que nos convida a pensar a diferença a partir de uma semelhança ou de uma identidade preliminar. O mundo dos simulacros, diz Deleuze, nos convida “a pensar a similitude e mesmo a identidade como produto de uma disparidade de fundo”.  Se, como vimos, o simulacro já não se referencia pelo modelo do qual teria desviado originalmente, basta “que a disparidade constituinte seja julgada nela mesma”, sem referência ou reporte a uma identidade anterior, preliminar ou pré-constituída.
O simulacro não será mais uma cópia infinitamente degradada, como quisera Platão; não será mais degradada, pois jamais fora cópia. Ele encerra singularidade, diferença, acontecimento e, portanto, nas palavras de Deleuze, encerra também uma “potência positiva que nega tanto o original quanto a cópia, tanto o modelo como a reprodução”;  seu nome não é menos que o real, na medida em que é o real em sua multiplicidade. Nenhum modelo, nem mesmo outro, resistirá à sua vertigem, pois simulacro é radical diferença, e na medida em que nega tanto o modelo quanto a cópia, não mais será passível de hierarquização na ordem de pretendentes de Platão. Eis a reversão nietzscheana do platonismo: quando emergem os simulacros, quando se entrevê, atrás de cada caverna, “um mundo mais amplo, mais rico, mais estranho além da superfície, um abismo atrás de cada chão, cada razão, por baixo de toda ‘fundamentação’”.  Mais e mais profundo, mas não por isso fora ou além da imanência: o mais profundo, dizia Valéry, é a pele. Como o eterno retorno nietzscheano,  não constitui um novo fundamento, nem um novo modelo: alegremente, positivamente, o simulacro como diferença em si, como pura imanência, engole todo modelo e todo fundamento, e com eles todos os objetos transcendentes.
Embora anos mais tarde Deleuze fosse abandonar a palavra “simulacro” – ao menos, é o que afirmava no ano de 1990, na Lettre-préfaceVariationsla philosophie de Gilles Deleuze, livro de Jean-Clet Martin dedicado à filosofia de Deleuze (“il me semble que j’ai tout a fait abandonné la notion de simulacre, qui ne vaut pas grand-chose”), “simulacro”, “diferença” e “multiplicidade” constituem diferentes instantes poéticos de uma só e mesma heterogênese: a única voz do ser, que se diz apenas da diferença; numa palavra: a imanência. O conceito, como a criação que se põe num plano de imanência (corte e crivo que age a partir do caos), também comporta zonas intensas de variação.
por Murilo Duarte Costa Corrêa em:

Autor: Gilles Deleuze
Publicação Original:1969
Editora: Editora 34
Idioma: Português
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Política da arte

Cohn-Bendit, Maio de 68

A estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos. Para mim, é um dado permanente.

Jacques Rancière

Autor: Jacques Rancière

Publicação original: 2005

Editora: Sem editora

Idioma: Português

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http://www.4shared.com/document/N15t1HzB/Jacques_Rancire_-_Poltica_da_a.html


De uma imagem à outra? Deleuze e as eras do cinema

Roma, Cidade Aberta, Roberto Rossellini, 1945

Com efeito, não se trata mais simplesmente, em Deleuze, de se adequaruma história da arte a uma história geral. Porque nele não há propriamente como falar nem de história da arte nem de história geral.Para ele, toda história é “história natural”. A “passagem” de um tipo deimagem a outro é suspensa num episódio teórico, a “ruptura do elosensório-motor” definido no interior de uma história natural dasimagens, que é, em seu princípio, ontológica e cosmológica.

Jacques Rancière

Autor: Jacques Rancière

Publicação original: 2001

Editora: Le Seuil

Idioma: Português

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http://www.4shared.com/document/V3Q0WjJy/Jacques_Rancire_-_Deleuze_e_as.html


O cinema de Guy Debord

Capa da edição norte-americana de A Sociedade do Espetáculo

O meu intuito é o de aqui definir certos aspectos da poética, ou melhor, da técnica composicional de Guy Debord no domínio do cinema. Evito voluntariamente a expressão “obra cinematográfica”, nominação que ele próprio rejeitou e que se pudesse utilizar a seu propósito. “Considerando a história da minha vida, escreveu ele em In girum imus nocte et consumimur igni [1978], não podia fazer aquilo a que se chama uma obra cinematográfica”. De resto, não apenas penso que o conceito de obra não é útil no caso de Debord, como sobretudo me pergunto se hoje, cada vez que se quer analisar aquilo a que se chama de obra, quer seja literária, cinematográfica ou outra, não seria necessário colocar em questão o seu próprio estatuto. Em vez de interrogar a obra enquanto tal, penso que é preciso perguntar que relação existe entre o que se podia fazer e o que foi feito. Uma vez, como estava tentado (e ainda estou) a considerá-lo um filósofo, Debord disse-me: “Não sou um filósofo, sou um estrategista”. Ele viu o seu tempo como uma guerra incessante em que toda a sua vida estava empenhada numa estratégia. É por isso que penso ser preciso interrogar-nos sobre o sentido do cinema nessa estratégia.

Giorgio Agamben

Autor: Giorgio Agamben

Publicação original: 1995

Editora: Hoëbeke

Idioma: Português

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http://www.4shared.com/document/6950vJ_X/Agamben_-_O_cinema_de_Guy_Debo.html


In girum imus nocte et consumimur igni e Crítica da separação

Não farei neste filme concessão alguma ao público. Muitíssimas, excelentes razões justificam, aos meus olhos, uma tal conduta, e as direi. Antes de mais nada, é por demais notório que jamais fiz concessões às idéias dominantes de minha época, nem a nenhum dos poderes existentes. Além disso, qualquer que seja a época, nada importante é comunicado em se poupando um público, ainda que fosse composto por contemporâneos de Péricles. E, no espelho congelado da tela, os espectadores não vêem atualmente nada que evoque os cidadãos respeitáveis de uma democracia.

Não farei neste filme concessão alguma ao público. Muitíssimas, excelentes razões justificam, aos meus olhos, uma tal conduta, e as direi. Antes de mais nada, é por demais notório que jamais fiz concessões às idéias dominantes de minha época, nem a nenhum dos poderes existentes.Além disso, qualquer que seja a época, nada importante é comunicado em se poupando um público, ainda que fosse composto por contemporâneos de Péricles. E, no espelho congelado da tela, os espectadores não vêem atualmente nada que evoque os cidadãos respeitáveis de uma democracia.

Guy Debord

Autor: Guy Debord

Publicação original: 1990

Editora: Oficina Raquel

Idioma: Português

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http://www.4shared.com/document/tn9JEamc/Debord_-_In_girum_imus_nocte_e.html


O inconsciente estético

 

Este livro não se propõe a entender como os conceitos freudianos se aplicam à interpretação de obras lirárias e artísticas. Ao contrário, ele procura demonstrar como as formulações de Freud estão em estreita relação com os movimentos da arte ocorridos sobretudo a partir do romantismo, explorando as tensões da lógica do inconsciente e uma outra lógica, a do inconsciente estético.

Jacques Rancière

Autor: Jacques Rancière

Publicação original: 2001

Editora: Editora 34

Idioma: Português

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http://www.4shared.com/document/cuQcU_d2/Jacques_Rancire_-_O_inconscien.html