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Arquivo por Autor

Tempo e Partilha

Caros-caras visitantes,

estamos passando por um momento de pausa em nosso processo de partilha e de trocas. O Gambiarre, que é uma plataforma pensada e  trabalhada no sentido político e emancipador dos afetos, das infiltrações subjetivas, da partilha como meio criativo da realidade e da liberdade entre os outros, infinita multidão; passa nesse tempo, pela cadência da pausa e da reflexão sobre os planos políticos que se amarram neste ano de 2011. Muitos, como acreditamos, sabem das novas perspectivas que o Ministério da Cultura (Minc) vem adotando desde a posse da atual ministra Ana de Hollanda, cujas ações e projeções renegam e tem negado as grandes conquistas da partilha dos conteúdos digitais construídos pela gestão do ex-ministro da cultura, Gilberto Gil. Falamos no caso do Creative Commons, mas não apenas deste plano, cuja construção autoral se dispõe a perceber a dimensão da obra (e sucessivamente, da relação econômica, política e educativa da obra para com o artista, do artista para com o seu público e do público para com a obra) enquanto um bem partilhável, mas nas relações coletivas que avançaram entre os brasileiros e tantos outros, onde a experiência do conhecimento, do prazer ao acesso, da criação de relações sociais que são muito mais flexíveis e intensas do que qualquer rede social limitante. Vendo/usando a obra como algo que ultrapassa as definições governamentais de propriedade material/intelectual/imaterial, vendo-a e partilhando-a como força da história e da humanidade. Bens humanos e culturais, que por direito, como está escrito e lavrado na constituição, todos deveriam ter acesso. E, também, como sabemos, esse direito é por si só hipócrita e restritivo.

O que está assolando desde 2008, está se intensificando. As práticas foram e serão de controle ao acesso destes “bens”! Os quais partem do argumento de que é dado por direito, o respeito à propriedade dos autores e a eles, o lobby milionário que as gravadoras, os escritores, os músicos e seus bandos negociam. Pois, essas políticas, ao contrário do que foi dito, não é o avesso do flerte à pirataria e ao tráfico de informação, é o flerte à exceção da liberdade de acesso desses “bens” pelos brasileiros e outros muitos.

… nisto, quase sempre, perguntamo-nos onde isso tudo vai parar…

E ao contrário do medo e do pessimismo, sentimos revolta e força.

Dizemos muito neste lugar, sem muito nos dirigirmos diretamente aos visitantes, próximos e queridos que nos dão o prazer de continuarmos. Somos dedicados ao exercício político que a partilha nos convida. Uma política da separação e do controle é algo que repugnamos em todos os sentidos. E para respondermos e agirmos coerentemente, e na mesma medida de força, que tal governamentabilidade se impõe, necessitamos de uma pausa.

Agradecemos a todos, que vêm e vão nesse lugar, agradecemos a todos o afeto pelo partilhar.

Gambiarre


Isso Não é um Cachimbo

“… Primeira versão, a de 1926, eu creio: um cachimbo desenhado com cuidado e, em cima (escrita a mão, com uma caligrafia regular,
caprichada, artificial, caligrafia de convento, como é possível encontrar servindo de modelo no alto dos cadernos escolares, ou num quadro-negro, depois de uma lição de coisas), esta menção: “isto não é um cachimbo”.
….A outra versão – suponho que a ultima -, pode-se encontrá-la na Alvorada nos antípodas . Mesmo cachimbo, mesmo enunciado, mesma caligrafia. Mas em vez de se encontrarem justapostos num espaço indiferente, sem limite nem especificação, o texto e a figura estão colocados no interior de uma moldura; ela própria está pousada sobre um cavalete, e este, por sua vez, sobre as tábuas bem visíveis do assoalho. Em cima, um cachimbo exatamente igual ao que se encontra, mas muito maior…
….”Será necessário então ler:” Não busquem no alto um cachimbo verdadeiro, é o sonho do cachimbo; mas o desenho que está lá sobre o quadro, bem firme e rigorosamente traçado, é este desenho que deve ser tomado por uma verdade manifesta…”
não consigo tirar da idéia que a diabrura reside numa operação tornada invisível pela simplicidade do resultado, mas que é a única a poder explicar o embaraço indefinido por ele provocado…Essa operação é um caligrama secretamente constituído por Magritte, em seguida desfeito com cuidado…
….separação entre signos liguísticos e elementos plásticos; equivalência de semelhança e da afirmação. Estes dois princípios constituíam a tensão da pintura clássica: pois o segundo reintroduzia o discurso (só há afirmação ali onde se fala) numa pintura onde o elemento linguístico era cuidadosamente excluído. Daí o fato de que a pintura clássica falava e – falava muito – embora fosse se constituindo fora da linguagem; daí o fato de que ela repousava silenciosamente num espaço discursivo; daí o fato de que ela instaurava, acima de si própria, uma espécie de lugar-comum onde podia restaurar as relações da imagem e dos signos…
….Magritte liga os signos verbais e os elementos plásticos, mas sem se outorgar, previamente, uma isotopia; esquiva o fundo de discurso afirmativo, sobre o qual repousava tranquilamente a semelhança. e coloca em jogo puras similitudes e enunciados verbais não afirmativos, na instabilidade de um volume sem referência e de um espaço sem plano…
….Nada de tudo isso é um cachimbo…mas um texto que simula um texto; um desenho de um cachimbo que simula o desenho de um cachimbo…(desenhado como se não fosse um desenho) …”
entre a parede e o espelho, que capta reflexos, e a superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada…em todos esses planos escorregam-se similitudes que nenhuma referencia vem fixar: translações sem ponto de partida nem suporte…
….a exterioridade, tão visível em Magritte, do grafismo e da plástica, está simbolizada pela não-relação – ou em todo caso pela relação muito complexa e muito aleatória entre o quadro  seu título…
….estranhas relações se tecem, intrusões se produzem, bruscas  invasões destrutoras, quedas de imagens em  meio às palavras, fulgores verbais que atravessam os desenhos e fazem-no voar em pedaços…
…..Magritte deixa reinar o velho espaço da representação, mas em superfície somente, pois não é mais do que uma pedra lisa, que traz figuras e palavras: embaixo não há nada. É a lápide de um túmulo: as incisões que desenham as figuras e a que mascaram as letras não comunicam senão pelo vazio, por esse não-lugar que se esconde sob a solidez do mármore…
parece-me que Magritte dissociou a semelhança da similitude…

Michel Foucault

Autor: Michel Foucault

Publicação Original: 1973

Editora: Paz e Terra

Idioma: Português

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Nascimento da Biopolítica

O curso ministrado por Michel Foucault no Collège de France de janeiro a abril de 1979, Nascimento da biopolítica, se inscreve na continuidade do curso do ano anterior, Segurança, território, população. Depois de mostrar como, no século XVIII, a economia política assinala o nascimento de uma nova razão governamental – governar menos, por uma preocupação de eficácia máxima, em função da naturalidade dos fenômenos com que se tem de lidar -, Michel Foucault empreende a análise das formas dessa governamentalidade liberal.

Autor: Michel Foucault

Publicação Original: 1979

Editora: Martins Fontes

Idioma: Português

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Foucault – Nascimento da Biopolítica


Gilles Deleuze – Una vida filosófica

Rizoma

Conferências sobre o filósofo francês Gilles Deleuze realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo em 1996 pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares. Um conjunto de contribuições de campos disciplinares diversos e contextos culturais e filosóficos contrastantes, que têm em comum a profunda simpatia intelectual de seus autores pela obra filosófica de Deleuze.

Autor: Eric Alliez

Publicação Original: Conferências sobre o filósofo francês Gilles Deleuze realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo em 1996 pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares. Um conjunto de contribuições de campos disciplinares diversos e contextos culturais e filosóficos contrastantes, que têm em comum a profunda simpatia intelectual de seus autores pela obra filosófica de Deleuze.

Idioma: Espanhol

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Sociedades movedizas – Pasos hacia una antropología de las calles

Lo que encontramos en las calles es una vida que sólo puede observarse en el instante en que emerge, ya que está destinada a disolverse de inmediato. En los exteriores urbanos no hay objetos sino relaciones diagramáticas entre ellos. Es una acción interminable cuyos protagonistas son esos transeúntes que reinterpretan la forma urbana a partir de los estilos con que se apropian de ella. La calle es así una forma radical de espacio social, que no es un lugar, sino un tener lugar de los cuerpos y las miradas que lo ocupan. Comarca rediseñada una y otra vez por las migraciones que la recorren, que tejen una amalgama inmensa de colonizaciones transitorias, muchas de ellas imprevisibles o insolentes: lo urbano, entendido como todo lo que en la ciudad no puede detenerse ni cuajar; lo viscoso, filtrándose entre los intersticios de lo sólido y desmintiéndolo.

Autor: Manuel Delgado

Publicação Original:2007

Editora: Anagrama

Idioma: Espanhol

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Monadologia

David, Bernini
David, Bernini

1. A Mônada, da qual vamos falar aqui, não é senão uma substância simples, que entra nos compostos. Simples, quer dizer, sem partes (T. § 10).

2. É necessário que haja substâncias simples, visto que há compostos; pois o composto outra coisa não é que um amontoado ou aggregatum dos simples.

3. Ora, onde não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possíveis. E tais Mônadas são os verdadeiros Átomos da Natureza e, em uma palavra, os Elementos das coisas.

4. Tampouco há dissolução a temer e não há como se conceber um modo pelo qual uma substância simples possa perecer naturalmente (T. § 89).

5. Pela mesma razão, não há modo pelo qual uma substância simples possa começar naturalmente, já que não pode ser formada por composição.

6. Portanto, pode dizer-se que as Mônadas só podem começar e acabar instantaneamente, isto é, que só podem começar por criação e acabar por aniquilamento, ao passo que o composto começa e acaba por partes.

7. Tampouco há meios de explicar como uma Mônada possa ser alterada ou modificada internamente por qualquer outra criatura, pois nada se lhe pode transpor, nem se pode conceber nela qualquer movimento interno que possa ser excitado, dirigido, aumentado ou diminuído lá dentro, tal como ocorre nos compostos, onde há mudança entre as partes. As Mônadas não possuem janelas através das quais algo possa entrar ou sair. Os acidentes não podem destacar-se, nem passear fora das substâncias, como faziam outrora as espécies sensíveis dos Escolásticos. Assim, nem substância, nem acidente podem entrar em uma Mônada a partir do exterior.

Autor: G.W. Leibniz

Publicação Original: 1714

Idioma: Português

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Novo Sistema da Natureza e da Comunicação das Substâncias

Vocação de São Mateus – Caravaggio

Elaborei esse sistema há muitos anos tendo divulgado algumas de suas partes a vários homens de ampla erudição e, em particular, a um dos maiores teólogos e filósofos do nosso tempo, que, ao tomar conhecimento dele por meio de uma pessoa da mais alta graduação, achou algumas das minhas opiniões bastante paradoxais. Mas, após receber minhas explicações, retirou o que havia afirmado, do modo mais generoso e admirável possível; e, tendo aprovado alguns dos meus pontos de vista, retratou-se em sua censura a outras partes com que ainda não havia concordado.¹ Desde então tenho continuado minhas meditações todas as vezes que tenho oportunidade, a fim de dar a público apenas opiniões bem-consideradas; e tenho tentado responder às objeções levantadas contra meus ensaios de dinâmica, que têm alguma conexão com este sistema. E agora, que alguns notáveis indivíduos buscam ver meus pontos de vista esclarecidos, arrisco-me a oferecer essas meditações, embora de modo algum sejam populares quanto ao estilo, nem tampouco possam ser apreciadas por todos os tipos de espíritos. Assim procedo, principalmente, buscando beneficiar-me com os julgamentos de pessoas esclarecidas nessas questões, pois seria muito penoso procurar e consultar individualmente todos aqueles que tivessem vontade de aconselhar-me – o que sempre estarei agradecido em receber, contanto que seja demonstrado um amor pela verdade, em vez de uma paixão por opiniões preconcebidas.

Autor: G.W. Leibniz

Publicação Original: 1695

Idioma: Português

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Leibniz – Biografia, Bibliografia e Glossário

Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig em 1º de julho de 1646, filho de Friedrich Leibniz, professor de filosofia moral na Universidade de Leipzig, e de Catharina Schmuck. Tendo perdido o pai em 1652, sua mãe se encarregou de sua educação. O garoto ingressou na escola aos sete anos e tão logo aprendeu a língua latina (que, segundo o próprio Leibniz, decorreu de seu próprio esforço autodidata), passou a freqüentar a biblioteca do seu falecido pai. Lá empreendeu várias leituras: poetas, oradores, juristas, filósofos, matemáticos, historiadores e teólogos – de Lívio a Cícero; de Heródoto, Xenofonte e Platão a historiadores do Império Romano. O hábito de empreender uma leitura universal e assídua o fez dominar muitos campos do saber. Ele mesmo nos relata que a História, a poesia e a Lógica estavam entre seus primeiros interesses:

“Antes que alcançasse a classe escolar na qual a Lógica era ensinada, aprofundei-me na leitura dos historiadores e poetas, pois, tão logo aprendi a ler passei a desfrutar dos seus versos. Porém, assim que aprendi Lógica fiquei impressionado com a ordem dos conceitos.” (GP VII 516) [cf. Ariew, p.18]

Leibniz freqüentou a universidade dos 14 aos 21 anos, inicialmente na Universidade de Leipzig (1661-1666) e, depois, na Universidade de Altdorf (1666-1667). Nos anos seguintes, dedicou-se à jurisprudência e à filosofia. Aparentemente, teve seu doutorado em Direito recusado em Leipzig em virtude de sua pouca idade (embora uma outra versão afirme que o doutorado lhe tenha sido negado pelo Deão da faculdade sob influência de sua esposa, a quem Leibniz granjeara a antipatia). Seja como for, obteve o doutorado em Altdorf defendendo uma tese intitulada De Casibus Perplexis in Jure.
Durante esse mesmo período, Leibniz travou conhecimento com o barão Johann Christian von Boineburg (1622-1672), Ministro de Philipp von Schönborn, Eleitor de Mainz e uma das mais eminentes figuras políticas da época. Embora Leibniz tenha sido convidado, à época, a integrar o corpo docente da Universidade de Altdorf, preferiu ingressar no serviço público, sob o patronato de Boineburg, vindo a ocupar diversos cargos em Mainz e Nuremberg.

1-Biografia

2_Cronologia da Obra

3_Traduções Comerciais

4_Comentadores

5_Artigos

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Glossário de Termos Leibnizianos

Convenções:

DM = Discurso de Metafísica (citação por parágrafo);
M = Monadologia (por parágrafo);
SN = Sistema Novo da Natureza (por parágrafo);
Correspond. = Correspondências com Arnauld ou von Hessen-Rheinfels.

Ação:
A ação é a operação da força de agir própria das substâncias. Ela define a substância como essencialmente ativa. Apenas Deus age sem sofrer a ação de outrem. Nas substâncias finitas, a ação é inseparável da paixão. Estando todas as coisas reguladas idealmente umas às outras pela harmonia, a uma ação em uma deve corresponder uma paixão nas outras. [M. 49-52; DM 15]

Agregado:
É um conjunto resultante de elementos ou indivíduos justapostos que não formam um ser (ou aquilo que Leibniz denomina, seguindo a tradição, uma substância, mas, um simples conjunto de seres. Um agregado não é por si, mas, por acidente. Por exemplo: um exército, uma tropa, um colar de pérolas, um monte de pedras. [M 2; Correspond. 57-67]

Alma:
Realidade imaterial e dinâmica que funda a unidade e a identidade de um vivente, a alma é um princípio de vida e de unidade para um corpo orgânico. Substância simples, princípio ativo, pode-se denominar também forma ou força primitiva, tardiamente, enteléquia. Ela é a fonte da ação. As almas comuns são os espelhos vivos que expressam o universo. As almas racionais ou espíritos são as imagens de Deus. [M. 14, 18, 62-67, 70-90; DM. 26-37; SN 14]

Apercepção:
Consciência reflexiva do estado interior, a apercepção acompanha as percepções distintas. Ato pontual, a apercepção acrescenta-se, então, à percepção, permanente atividade expressiva do mundo a partir de um ponto de vista individual. Em resumo, percepção consciente. [M. 14, 19, 23, 29-30]

Apetição, inclinação:
A apetição é a tendência que nos impele, continuamente de uma percepção a outra; o princípio de mudança interna. É regida pelas leis das causas finais do bem e do mal. A apetição exprime a mobilidade das almas, as quais não estão jamais em repouso e tendem continuamente a uma melhor harmonia interior. [M. 15, 79]

Causa e razão:
Uma causa é uma razão real que reside em um ser real cuja ação explica por que uma coisa (um fenômeno, um acontecimento) existe e é o que é. A razão suficiente é o conjunto das condições requeridas para a produção de um ser ou de um acontecimento (ou seja, a variação do ser). [M. 56; DM. 14; Correspond. 32-45]

Compossibilidade:
Esfera lógica mais restrita que aquela da possibilidade lógica. Para que algo exista não é suficiente que seja possível; é necessário que aquela coisa seja compossível com outras que constituem o mundo real.

Contingência:
Contingente significa aquilo que não é necessário e cujo oposto é possível porque não implica contradição. Todos os seres, exceto Deus, são contingentes: suas existências não decorrem de suas essências. Porém, as proposições, as verdades, são necessárias ou contingentes. As proposições necessárias podem ser reduzidas a proposições idênticas, tais como A = A; já as proposições contingentes não podem, por um número finito de operações, ser reduzidas a identidades.

Destino:
Não se trata de um poder misterioso que fixaria antecipadamente todos os acontecimentos, mas, um encadeamento inevitável das coisas e dos acontecimentos que decorre de uma escolha livre de Deus. Há uma escolha na criação, a qual implica uma série infinita de conseqüências previstas por Deus como envolvidas na Sua livre escolha. Deus prevê, por exemplo, a traição livre de Judas. O traidor, contudo, é responsável por seu ato. Deus é responsável pela escolha desse universo que contém Judas. Há, por conseguinte, uma co-responsabilidade entre o homem e Deus nas ações livres. [DM 8]

Deus:
Deus é o nome que se dá, habitualmente, à razão última das coisas; a um ser existente em ato e exterior à série de coisas existentes e que possui a responsabilidade de atualizá-las. [M. 43-48; DM 1-6]

Enteléquia:
É uma palavra formada a partir do grego entelecheia segundo a qual Aristóteles designou o ato, no sentido de uma realização, de uma perfeição. O termo é inicialmente citado como exemplo de uma noção obscura. Leibniz o utiliza muito tarde como sinônimo de força metafísica primitiva, aquela força de agir constitutiva da substância. [M.18, 48, 63, 70]

Espírito:
Um espírito é uma alma virtualmente reflexiva, uma substância capaz de agir por si mesma; portanto, capaz de referir-se e de conversar com outros espíritos. [DM 36]

Expressão:

Correspondência meramente formal, tal como uma analogia matemática, entre realidades diversas ou mesmo heterogêneas: basta que existam relações ou propriedades em uma coisa que correspondam às relações ou propriedades de uma outra para que possamos afirmar que uma exprime a outra. [M. 56-57, DM. 14, 16; Correspond. 91-105]

Harmonia pré-estabelecida:
A harmonia é a justa proporção, a unidade na multiplicidade ou a diversidade compensada pela identidade. Descobrir prazer em alguma coisa é vivenciar sua harmonia, sua variedade contrabalançada pela semelhança. Deus é, Ele mesmo, princípio de beleza e harmonia das coisas. A harmonia é, portanto, o objeto natural de amor. No sistema da harmonia, da concomitância ou hipótese dos acordos, todas as coisas e acontecimentos do universo conspiram em conjunto para o mais belo. [M. 56; DM. 9, 15; SN. 14-15]

Idêntico:
Uma proposição é dita idêntica quando o predicado está contido, expressamente, no sujeito.

Indivíduo:
Tradução do grego atomon (indivisível), o termo indivíduo designa o ser singular, único, diferente dos demais, correspondendo ao termo escolástico species infima ou à substância primeira de Aristóteles. [M. 9; DM. 8]

Inerência:
Tudo aquilo que é dito de forma verídica de qualquer coisa é inerente à noção daquela coisa.

Liberdade, livre arbítrio:
Definido negativamente por Leibniz, o livre arbítrio opõe-se ao que é restrito, à ignorância e ao erro, que reduzem ou eliminam a possibilidade positiva de fazer o que se deseja. Portanto, liberdade ou livre arbítrio não devem ser confundidos com um poder mágico, como viria a ser uma vontade superior à inclinação e indiferente às apetições e percepções. [DM. 13, 30]

Mal:
Relativo ao bem, que o limita ou enfraquece, o mal não possui realidade clara. Sua natureza é relativa ou privativa: “o mal é uma privação do ser, ao passo que a ação de Deus é positiva” (Teodicéia § 29). Leibniz o compara com a inércia natural dos corpos. Sem realidade ontológica, corresponde a uma limitação de perfeição do ser. O mal, estritamente falando, não é nada.

Matéria:
Designa o constituinte passivo de tudo que existe. Como princípio passivo de resistência e de impenetrabilidade, ela supõe formas ativas tais como as almas. Considerada à parte de todas formas, almas ou forças ativas, é apenas uma abstração. Unida a uma forma substancial ou alma, a matéria forma uma substância verdadeiramente una; uma unidade per si. [M. 4, 65-67]

Melhor:
Fim último de todas as coisas, o melhor é aquilo que é desejado por Deus. Conforme um decreto de Deus que as cria à sua imagem, o melhor é igualmente desejado por todas as criaturas, mas, somente na medida de suas capacidades perceptivas ou afetivas, isto é, mais ou menos confusamente. [M. 55]

Mônada:
Uma mônada (do grego monas, unidade) é uma unidade por si mesma, analisável em princípio ativo denominado alma, forma substancial ou enteléquia e em um princípio passivo dito massa ou matéria primeira. A mônada encerra um tipo de percepção e de apetição. É uma substância simples, sem partes. Toda mônada é um espelho vivo do universo, a partir de seu ponto de vista. Já que tudo que existe é uma mônada, um composto de mônadas, estas são átomos substanciais. [M. 1-21]

Necessidade:
É necessário aquilo que não pode não ser. Deve-se distinguir entre uma necessidade absoluta e uma necessidade hipotética. É necessário absolutamente aquilo cujo contrário é impossível, isto é, que implica contradição. Por exemplo, o triângulo possui necessariamente três ângulos. É necessário hipoteticamente aquilo que é a conseqüência necessária de uma decisão contingente. Assim, supondo-se que Deus criou o mundo no qual Judas trairá o Cristo, é certo que Judas trairá o Cristo. Mas não é necessário que Deus tenha criado tal mundo contendo Judas: Sua decisão de criar sendo livre e contingente, o que não significa que seja arbitrário ou sem razão. Por conseqüência, um outro Judas é concebível, não-contraditório.

Noção completa:
A noção completa contém tudo aquilo que pode ser dito, afirmado ou enunciado de um indivíduo: ela é capaz de estabelecer a distinção entre todos os indivíduos semelhantes. [DM. 8, 13, 24; Correspond. 6-10]

Percepção:
A percepção é a ação própria de toda Alma ou substância que consiste em expressar o universo sob um determinado ponto de vista. Ela envolve uma múltipla unidade interna, que expressa ao mesmo tempo o universo; corresponde a um esforço da substância. A percepção, índice da existência, é sempre confiável como percepção imediata e as experiências iniciais são as primeiras verdades de fato. [M. 14-17, 21, 23, 63; DM. 33]

Perfeição:
A perfeição é a realidade em sua intensidade positiva, suas afirmações essenciais. A cada grau de perfeição corresponde um grau de poder e, correlativamente, uma certa limitação. Ao grau superior de perfeição corresponde um poder infinito, sem limites: aquele de Deus. Toda perfeição provém de Deus que continuamente produz aquilo que há de positivo, de bom, de perfeito, nas criaturas; as imperfeições são atribuíveis a uma limitação original de toda criatura. [M. 41-42, 54; DM. 1-6]

Possível:
A essência ou a possibilidade de um ser é sua capacidade de ser pensado, o conteúdo nocional que Deus pôs na existência ao criar a substância. As proposições que dizem respeito às essências são as verdades eternas. Os possíveis dependem somente do entendimento divino, enquanto que as coisas atuais dependem também de sua vontade. A ciência dos possíveis é a ciência da inteligência pura, enquanto que a ciência das coisas atuais (do mundo trazido à existência) é denominada ciência da visão. [M. 43, 57]

Predeterminação:
A doutrina da predeterminação é uma doutrina delicada, inseparável daquela da contingência, onde Leibniz tenta evitar o necessitarismo e preservar o livre arbítrio das criaturas mantendo, ao mesmo tempo, a presciência e a providências divinas. Deus prevê as futuras escolhas das criaturas; prevê, assim, sua predeterminação futura, que não necessita: dá à vontade humana sua eficácia, pois é o concurso de Deus às operações humanas. [DM. 4, 8, 13]

Princípio de razão:
Princípio segundo o qual nada existe que não tenha uma razão de ser. A razão não é, então, outra coisa que a série infinita dos requisitos dos fatos, que envolve o universo em sua integralidade (passado, presente e futuro), como os decretos de Deus relativos à existência do mundo. [M. 27-39; DM. 8, 31]

Razão:
A razão é, primeiramente, uma realidade imaterial que produz pela sua ação, uma ligação, uma conexão, entre ela e um acontecimento ou uma coisa. A razão é, também, a capacidade espontânea de apreensão das razões e relações dos espíritos. Deus é a razão última das coisas.

Substância:
Ser individual concreto e completo que responde a um possível ponto de vista sobre o universo e que Deus tornou efetivo através da criação. Toda substância está perpetuamente agindo e atuando, com o concurso de Deus, encontrando-se suas operações internas coordenadas com as operações das demais substâncias, o que forma um sistema de substâncias: o universo. Uma substância distingue-se de um agregado por um princípio de unidade que lhe permite permanecer o que é através da contínua mudança de suas operações e modificações. [M. 1-2, 16; DM. 8, 14, 16, 34]

Verdade:
Proposições cujo conceito do predicado está contido no conceito do sujeito. O modelo da proposição verdadeira mais simples é uma identidade (A é A). O lugar natural dessas proposições é o entendimento de Deus, região das verdades. Todas as verdades ou bem são verdades de fato, ou bem são verdades da razão. [M.29-36; 43-46; DM. 13; Correspond. 23-32]


O Corpo do Bailarino

Ballet Triádico de Oskar Schlemmer (Bauhaus)

O coreógrafo Merce Cunningham efetuou uma ruptura radical com relação aos princípios miméticos presentes tanto no balé clássico quanto na dança moderna, vinculados ao paradigma representacional, à narratividade e a uma concepção orgânica do corpo. A dança criada por Cunningham é investigada a partir de conceitos fundamentais da filosofia deleuzeana, tais como a teoria das séries, o evento, o virtual e o plano de imanência.

Autor: José Gil

Idioma: Português

Link para Download:http://www.4shared.com/get/7-yvGj9v/Jos_Gil_-_O_corpo_bailarino.html


Entrevista com José Gil

ELE FOI CAPAZ DE INTRODUZIR NO MOVIMENTO DOS CONCEITOS O MOVIMENTO DA VIDA

Nascido, em 1939, em Moçambique, José Gil estudou filosofia na Universi­dade de Paris e é professor na Universidade Nova de Lisboa. Algumas de suas publicações: Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações (Relógio D’ Água, 1987); Monstros (Quetzal, 1994); O espaço interior (Presença, 1994);A imagem­-nua e as pequenas percepções (Relógio D’ Água, 1996); Metamorfoses do cor­po (Relógio D’ Água, 1997); Diferença e negação na Poesia de Fernando Pes­soa (Relume-Dumará, 2000); Movimento total: o corpo e a dança (Relógio D’ Água, 2001). Sobre o confronto Badiou/Deleuze, mencionado de passagem por José Gil nesta entrevista, pode-se consultar seu ensaio “Quatre méchantes notes sur un livre méchant”1, bem como os ensaios de Arnaud Villani2, Eric Alliez3 e do próprio Alain Badiou4 sobre o mesmo tema, no site da versão on-line da revista Multitudes5 (Sandra e Tomaz).

 

Entrevista com José Gil

In: Dossiê Gilles Deleuze. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.27 n.2 p.205-224, jul./dez. 2002

Link para Download: http://www.4shared.com/get/D4CeqQIJ/Entrevista_com_Jos_Gil.html